BRASIL, Mulher, Uma menina que gosta de escrever.

 

   

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da Clá.



Xadrez

 

  Seu corpo palpitava excitação e desencanto. Sentavam em silêncio um ao lado do outro tentando decifrar as expressões enigmáticas que seus rostos ofereciam. A música que inundara o espaço já não era clara para nenhum dos dois, parecia para ela uma estranha e distante lembrança de dias menos falhos. Queria uma reação. Qualquer reação. Mas o menino ao seu lado apenas olhava para frente fuçando os cabelos em inquietação. Não conseguia inventar nenhuma espontaneidade para assustar o menino emudecido. Durou horas, parecia. Hesitava. Sugeria uma interjeição. Mas nada pronunciava. Ambos, estáticos em fala, remexiam em seus lugares evitando cegamente qualquer tipo de contato físico. Que pelo menos um abraço. Uma frase inusitada. Tanto fizesse, o que fizesse, abriria um sorriso envergonhado em sua face. Desejava ler a intimidade da mente desse que dividia seu silêncio constrangedor. Esperavam a hora de sua partida, mantinha-se sob os comandos do relógio. Respirou fundo, fechou os olhos e esvaziou sua mente agitada com idéias mirabolantes. Percorreu timidamente com a mão a distância no sofá que os separava e manteve-a imperceptível junto ao menino. E então, suavemente a pousou sobre sua coxa. Ergueram suas cabeças em rápida sincronia e olharam-se assustados, mas sem remover a mão. Pararam naquela posição e contemplaram-se com olhos arregalados em espanto e mistério. Estavam a menos de um braço de distância um do outro, no entanto sentiam percorrer milhas até suas faces se encontrarem. Fundiram-se na alquimia dos toques de seus lábios, aos poucos se rendendo em uma atmosfera sublime que beirava o amor e a intranqüilidade. Tão pouco cerrara suas pálpebras, ouviu uma música familiar perfurar a espessa atmosfera que havia se formado em volta dos dois. Chegara a hora de ir embora e a música anunciava o fim desses tão longos minutos abafados.

 



Escrito por Clarissa P. Portugal às 22h47
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Not Guilty

 

"Now, I'm standing in the kitchen
carvin' up the chicken for dinner,
minding my own business,
and in storms my husband Wilbur,
in a jealous rage.
"You been screwin' the milkman,"
he says. He was crazy
and he kept screamin',
"you been screwin the milkman."
And then he ran into my knife.
He ran into my knife ten times!"

Chicago – Cell Block Tango; June.

 

  O fato é que não resisti. Não, resisti não é a palavra. Ele me fez fazer aquilo. Desgraçado. De certo não sabia da minha loucura contida. Sabe aquelas pessoas que trocam semanalmente de gosto? Não conseguem ficar nem um mês no mesmo curso? É, ele era assim. Essa era a terceira vez que mudava de hobby e eu há muito já deixara de ser sua paixão número um. Matei-o, é verdade. E mataria de novo se pudesse, mas a culpa era toda dele. Sempre um canalha que dava a desculpa de curiosidade toda vez que me largava por um de seus hobbies. Hobby o caralho! Voltei para casa mais cedo um dia e lá estava o filho da puta comendo a minha melhor amiga! Que era amiga dele, aliás. Haha. Ri sem dó e matei os dois bem ali, na minha cama. Parecia um filme de Quentin Tarantino. Minha sorte era que um dos hobbies do desgraçado eram artes marciais. Nunca tinha usado tão bem a espada dele. Morreram juntos, num só golpe atravessado da espada.



Escrito por Clarissa P. Portugal às 23h08
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