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da Clá.



Sinta

  Diante do espelho nunca sabia quem era. Passava horas a fitar uma imagem que parecia refleti-la, que executava os seus mesmos gestos, mas nos olhos mentia e a boca não sorria. No reflexo via sua maldição, sem cor, tudo cinza. Não entendia o que via, às vezes menino, às vezes menina; só no espelho sentia seu inconsciente primitivo, vontades reprimidas. Levantava a mão, mas na palma não tinha vida; cada suspiro encostava no vidro, condensava em água fria. Passiva e inerte, sublimara sua alma que no espelho não refletia, mas apreciava a poesia do seu não-ser e desejava fundir-se àquela imagem. Seria o ódio e o amor que não tinha, no reflexo, sem querer, ela quase que vivia, em sua breve esquizofrenia. No espelho ela sentia seu corpo contra a parede fria, nua no espelho, mas não era como seu corpo parecia; seu pudor permitia sua nudez apenas sob a água que subia. Seu inconsciente berrava, sob sua pele adrenalina corria, mas a passividade de sua face se mantinha. Sem sentir, já estava absorvida em sua própria loucura. Silenciosa sinestesia, a heroína que por si só não via, não chorava, não sentia. Não sentia. Invejava aquela figura a imitá-la por não ter o peso do ser, apenas o luxo de parecê-lo. Não sentia. O corpo virou imagem e o cinza sem vida do espelho bateu contra o azul estéril de sua pele. A figura hipnótica se desmontou em pedaços disformes e à frieza surgiu o fervor de seu punho vermelho e pulsante. A dor queimava sua mão coberta de vidro e ouviu ao longe gritos de susto e manifestos pelo que fazia. Mas sua face não sentia.



Escrito por Clarissa P. Portugal às 19h37
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